Outro Inverno e estas roupas
estarão gastas
Nada agora é feito para durar
Sê por isso parca na exuberância
e lava à mão
cuecas de cetim e camisolas de angorá
(Não hás-de ter os fundilhos coçados, bambos soutiens
quando alguém vier para te amar)
Se viajas,
pendura o sobretudo pelos ombros ao chegar
(num cabide e não atrás da porta, que o deformas, e à noite
faz pensar
no escalpe abandonado de um gorila)
Mostra-te em público o necessário apenas, e em privado
despe-te e guardas as boas malhas no baú
onde não fizeste enxoval
Lembra-te: é nos punhos da camisa
que se nota o desespero
Pousa os pulsos elementarmente sobre a mesa
e trabalha sem mácula, sem cansaço, como se as mãos
pudessem levitar.
Andreia C. Faria
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